• O que fazer se me sinto explorado como Trainee?

    15 Jul 2013
  • “Há dois anos fui aprovada no processo seletivo do primeiro programa de trainee de uma empresa nacional. Desde então já trabalhei em três setores diferentes internamente e, durante esse período, aprendi e cresci muito como profissional. Considero, porém, que isso aconteceu mais pela prática do dia a dia do que pelo programa em si, que não cumpriu com muita coisa que foi prometida e não tem uma estrutura adequada – conforme descobri depois. Embora goste da empresa e do meu trabalho, sinto que sou vista como “mão de obra barata”, pois continuo sendo remunerada como trainee, mas as cobranças, volume de trabalho e responsabilidades aumentaram muito. Outros aprovados estão na mesma situação e já reclamaram com os gestores, mas não há previsão melhoria. O que devo fazer?”
    Trainee, 25 anos

    O seu questionamento é mais comum do que eu gostaria e, por isso, ampliarei a discussão abordando também os processos de estágio que surgiram a partir de uma mesma demanda: a dificuldade das empresas, independentemente de seu segmento de atuação, para encontrar profissionais preparados para assumirem os mais diferentes desafios. Diante desse contexto, as companhias optaram por identificar, cada vez mais cedo, estudantes no início da trajetória profissional para desenvolvê-los a partir das necessidades e cultura da organização. Potencializam, assim, o aprendizado e crescimento profissional do jovem talento.

    Cada empresa tem necessidades e culturas bem específicas, o que nos impede de qualquer generalização. Conceitualmente, porém, um programa de trainee é estruturado quando se quer planejar a sucessão dos seus cargos de liderança e acelerar o desenvolvimento de profissionais que demonstram potencial para atingir essas posições em um prazo menor que o tradicional.
    Para que esse objetivo possa ser alcançado, a companhia oferece estímulos que vão de treinamentos formais, rodízio em diferentes áreas a desafios na rotina de trabalho. Por outro lado, espera que o jovem contratado apresente resultados diferenciados, oxigenação no time, visão crítica e inovação de processos ou produtos. Como você faz parte da primeira turma de trainee da sua empresa, muito daquilo que foi planejado e oferecido pode ter sido construído a partir de referências externas e não condizem com a realidade interna.

    Programas de alto investimento como esses devem fazer parte de uma estratégia corporativa e envolver, desde o planejamento, todos os interessados. O problema é que, muitas vezes, a decisão de ter um programa de trainee é de um só líder ou área, ou muito descolada de um alinhamento. Ou seja, quem desenhou a estratégia de atração do programa foi uma área, quem idealizou o desenvolvimento foi outra e quem executa e acompanha os aprovados é uma terceira. Tudo isso pode colaborar para a diferença entre expectativa e realidade, gerando insatisfação tanto do trainee quanto da própria empresa que não vê o retorno esperado.

    A minha sugestão é que você reúna os demais trainees para construir uma proposta de solução do problema que vêm enfrentando – ou pelo menos uma análise sobre o tema. Procurem envolver não só os gestores do negócio, mas conversem também com os representantes de recursos humanos e lideranças que estiveram presentes na seleção.
    Deixar a companhia sem buscar uma solução não é o ideal, porque você vai se deparar com situações similares ao longo da carreira. Receber um desafio maior que o esperado para o cargo pode ser uma evidência de um desalinhamento da real proposta do programa de trainee ou pode ser a maneira da empresa te expor a situações importantes para o próximo cargo a ser ocupado. O que não é aceitável é essa sensação de “mão de obra barata”, que pode afetar o seu envolvimento e a confiança na empresa.

    Aproveitem o momento para fazer parte da solução. Tenho certeza de que mesmo se você não conseguir mudar tudo o que gostaria, vai ter conhecido o ponto de vista de diferentes profissionais e áreas e poderá tomar a decisão de sair ou ficar na empresa com segurança.

    Texto publicado na Coluna Divã Executivo do jornal Valor Econômico
    por Sofia Esteves
    Presidente do Grupo DMRH

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