• Devo pedir flexibilidade de horário no trabalho?

    11 Dec 2013
  • Trabalho há alguns meses na área de inovação de uma empresa multinacional. Gosto do que faço, tenho desafios profissionais interessantes, relaciono-me bem com a equipe e tenho um salário compatível com os do mercado. O problema é que, mesmo assim, estou desmotivado. Um dos principais problemas é a falta de flexibilidade de horário no meu trabalho. Precisamos chegar pontualmente muito cedo, mas essa rigidez de horário não vale para a hora de sair. Não vejo abertura para negociar home office ou horário flexível, uma vez que ninguém da empresa tem esse “privilégio”. Estou pensando em buscar um novo emprego e até disposto a ganhar menos, pensando em qualidade de vida. Ao mesmo tempo, como trabalho em uma organização de renome, tenho medo de estar desperdiçando uma boa oportunidade de carreira. Meus amigos dizem que estou “reclamando de barriga cheia”. O que devo fazer?

    Analista de inovação, 28 anos

    Uma recente pesquisa realizada pela consultoria PwC com 1.757 executivos de 30 setores em 25 países revelou que 93% dos entrevistados acham que o crescimento orgânico via inovação vai responder pelo grosso do aumento da receita em suas empresas. Apenas 2% preveem um crescimento majoritariamente inorgânico (por meio de fusões e aquisições).
    Ou seja, você faz parte de uma área considerada, hoje, uma necessidade competitiva. É ela quem vai estimular ou incubar projetos que podem fazer a receita da empresa crescer de modo rápido e rentável, garantindo também um melhor posicionamento no mercado, mais satisfação entre clientes e custos menores. Talvez por isso alguns amigos digam que você está “reclamando de barriga cheia” – você está inserido em uma área “do futuro”, com muitas potencialidades a serem exploradas.

    Considero que o fato de atuar em inovação é uma oportunidade para solucionar o problema que você vem enfrentando. Será que outras pessoas, e de outros setores, não sentem a mesma coisa que você sobre a jornada de trabalho?
    Muitos profissionais já enxergam a jornada flexível de trabalho como uma prática altamente motivadora. A área de gestão de pessoas da sua empresa não tem algum projeto de inovação relacionado com essa temática?

    Vale você investigar ou propor isso, já que os impactos podem ser relevantes. Se você fizer um estudo com as principais concorrentes, verá que muitas estão investindo em ações relacionadas à jornada flexível de trabalho. A busca pela qualidade de vida é o fator mais apontado pelos jovens profissionais e executivos quando questionados sobre o que buscam em uma trajetória profissional. Flexibilidade da jornada e políticas de home office já são uma realidade em pequenas, médias e grandes empresas que buscam atração e retenção dos seus colaboradores.

    Uma pesquisa da consultoria Remunerar comparou grupos de empresas que adotam ou não o home office. A conclusão foi que a prática, aliada a outras ações do departamento de recursos humanos, pode contribuir para maior tempo de permanência dos funcionários na empresa e na redução do índice de turnover. E, se você quiser fazer uma pesquisa ainda mais completa para embasar a sua insatisfação e mostrar para a diretoria da empresa que o que está propondo vai além de um benefício na gestão das pessoas, mostre impactos na rentabilidade do negócio, utilize números e dados que comprovem a redução de gastos em infraestrutura, aluguel e tempo de deslocamento dos funcionários, por exemplo.

    Ao conseguir tornar esse seu incômodo um projeto que pode atingir positivamente você e os demais colaboradores, ataque diretamente os pontos que ainda podem gerar insegurança, como controle da produtividade e disciplina de trabalho, além do próprio choque de valores frente à cultura interna (de forte controle e centralização).
    Desenhe estratégias para lidar com todos esses riscos, mas vá em frente. O mundo do trabalho do futuro terá essa temática como aspecto central e você já pode transformar o seu problema em solução estratégica para a empresa na qual atua.

    Texto publicado na Coluna Divã Executivo do jornal Valor Econômico
    por Sofia Esteves
    Presidente do Grupo DMRH

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