• Arrumo as malas ou não?

    21 May 2013
  • Trabalho há cinco anos em uma multinacional, onde entrei como trainee. Uma das exigências no processo seletivo era a disponibilidade para viajar e atuar no exterior. Sempre concordei e até sonhei com a chance de morar fora. Duas semanas atrás, porém, fui informado pela diretoria sobre uma vaga em uma unidade fora do Brasil, onde deverei passar os próximos dois anos. O problema é que não me animei com essa ideia. Além de não ter gostado do destino sugerido, estou em um momento diferente na minha vida pessoal e não gostaria de me afastar do país nesse momento. Posso simplesmente recusar essa viagem ou isso me prejudicaria minha carreira? O que devo fazer?

    Gerente de produtos, 28 anos

    Há alguns anos atrás esta discussão sobre a carreira internacional acontecia em um formato bem diferente da que temos hoje. Muitos profissionais almejavam uma experiência profissional fora do Brasil, mas queriam passagem só de ida, ou seja, pretendiam construir, no longo prazo, sua carreira e vida pessoal em outro país que lhe oferecesse melhores oportunidades de crescimento e uma qualidade de vida diferente da que ele tinha no seu país de origem. Atualmente, devido ao novo contexto sócio-econômico no qual estamos inseridos e aos valores e crenças da sua geração, a busca pela carreira internacional ganhou novos formatos. Ela é ainda um item valorizado na atração e retenção de talentos, no entanto, já é possível identificar uma tendência de muitos optarem pela experiência profissional fora do Brasil por um período específico, com passagem de ida e de volta.

    Os motivos para essa mudança de perspectiva são inúmeros, entre eles, a variedade de oportunidades profissionais que vêm crescendo no Brasil, o foco principal de muitos negócios estar apontado para países como o nosso e também uma questão da valorização da construção da vida pessoal próxima à família e amigos. A questão da busca pelo equilíbrio entre vida pessoal e profissional reflete também na carreira internacional, ou seja, não é só você que vem questionando se vale a pena impactar toda a sua vida e dos seus familiares em nome do seu desenvolvimento e crescimento profissional. Os conceitos modernos de carreira devolvem ao profissional a responsabilidade pela sua autogestão e o resultado disso é o dilema que você está enfrentando: a empresa considera essa experiência importante, mas eu não tenho certeza do atual peso disso na minha vida. É comum que na contratação de trainees seja um pré-requisito a disponibilidade morar fora do estado e até do país, as empresas unem o momento da fase de vida e de carreira do jovem profissional e a sua necessidade em preparar futuras lideranças com essa vivência e com o olhar do negócio como um todo, inclusive multicultural.

    Para resolver esse dilema sem prejudicar a sua boa imagem profissional, recomendo que marque uma conversa com o seu gestor e com o representante de recursos humanos da sua área e entenda como eles enxergam que essa oportunidade pode agregar no seu atual momento profissional, o quão e como eles consideram essa vivência estratégica para o seu crescimento, para a área e para a empresa como um todo. A partir dos argumentos deles, reveja os seus e verifique se ainda não vê sentido nessa oportunidade fora do país. Caso não seja do seu interesse, fale sobre o seu momento pessoal e dos seus argumentos de por que não gostaria de viver isso agora. Deixe claro o quanto está realizada com o seu desenvolvimento na empresa e que sabe que esse convite é um voto de confiança no seu trabalho. Faça sugestões de outras movimentações que acredita que poderia fazer e que trariam o crescimento previsto para você e para a empresa.

    Essa não será a primeira nem a última vez que o momento profissional não parecerá alinhado ao pessoal e aos seus desejos e objetivos de vida. Quando esse desencontro acontece, é importante pensar sobre o peso que cada caminho proposto tem para você e qual o preço que quer pagar por essa decisão. A todo o momento estamos fazendo escolhas e quando dizemos sim para uma rota, obrigatoriamente deixamos de viver outros possíveis caminhos. O dizer não nesse caso pode ter uma conseqüência que parece frustrante para você, esteja preparada também para isso, já que não sabemos a reação da empresa diante da sua negativa. Algumas escolhas terão impactos maiores na sua trajetória e são essas as encruzilhadas que vão exigir que saiba bem quem você é, aonde quer chegar e do que está disposta ou não a abrir mão para sua realização profissional e pessoal.

    Texto publicado na Coluna Divã Executivo do jornal Valor Econômico
    por Sofia Esteves
    Presidente do Grupo DMRH

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