• O que você faz?

    10 Oct 2013
  • Um equívoco bastante comum que se comete é confundir a formação acadêmica com a função que se vai exercer profissionalmente. 
    Se repararmos, na maioria das vezes em que precisamos preencher um cadastro de qualquer natureza aparecem dois espaços diferentes, em geral, um seguido do outro: profissão e cargo. Isso significa que a formação acadêmica não vai, necessariamente, determinar o tipo de atividade para a qual se está capacitado.

    A pessoa pode se formar em Direito e não ter um escritório de advocacia – pode ser delegado, juiz, procurador, professor, escritor, articulista. Pode se formar em Medicina e abrir uma clínica estética ou trabalhar na indústria farmacêutica. Pode ser antropólogo e atuar como palestrante ou consultor empresarial. Pode fazer Psicologia, como eu, e se tornar uma empresária de recursos humanos.
    São inúmeras as possibilidades, muitas das quais absolutamente desconhecidas. Outro dia, conversando com um fonoaudiólogo, fiquei impressionada com a diversidade do mercado de trabalho desse profissional. Pouca gente sabe que um fonoaudiólogo pode trabalhar como consultor de redes de tevê, ajudando apresentadores e repórteres a encontrar o tom certo de vez para dar uma notícia boa ou ruim. Menos gente deve saber também que esse profissional pode ser contratado para orientar dubladores de filmes e desenhos animados para que às vezes sejam adequadas ao tipo físico dos personagens.

    O que acontece, em primeiro lugar, é um enorme desconhecimento das inúmeras possibilidades de trabalho que determinada formação pode dar. Existem milhares de cursos de graduação e cada um se desdobra em numerosas alternativas de trabalho. O ideal seria que, desde o ensino infantil, as crianças pudessem começar a conhecer essas possibilidades. Há escolas infantis que promovem, antes mesmo do pré, passeios a clínicas veterinárias, consultórios dentários, escritórios de advocacia e por aí vai. Mas, infelizmente, essa não é a regra. Em geral, é só no último ano do ensino médio que os jovens recebem parte destas informações.
    Mas, por mais que possa parecer, não se trata de um bicho-de-sete-cabeças. Pode-se começar, a qualquer tempo, a pesquisar sobre as carreiras nos chamados guias do estudante. Isso pode ajudar, pelo menos, a descartar com mais segurança aquelas áreas com as quais não tem afinidade alguma, por exemplo.

    Além disso, pode-se ainda participar de eventos especializados, palestras e aulas abertas, como ouvinte. Feito isso, o ideal seria criar oportunidades para poder, pelo menos, conversar com pessoas que atuem nas áreas que despertarem seu interesse. Outra questão que precisa ser esclarecida é a confusão que se faz entre ser e exercer. Dificilmente alguém pergunta: “O que você faz?”, quando quer saber sobre a sua vida profissional. Em geral, pergunta-se “O que você é?”, como se a formação acadêmica determinasse o que o que você vai ser para sempre.

    A questão é arranjar um emprego. É preciso concluir o ensino médio para arranjar emprego, é preciso fazer uma faculdade boa para arrumar emprego melhor, é preciso fazer MBA para arrumar emprego que pague mais, é preciso fazer mestrado para arrumar emprego que dê mais status, é preciso viver um tempo no exterior para manter o emprego e o status. Essa é a realidade? Em certa medida é realmente. O problema é que nessa obsessão a pessoa se esquece do que ela quer ser, independentemente da carreira e do cargo que deseja ocupar. E essa cobrança começa, muitas vezes, dentro de casa.

    É comum, por exemplo, a seguinte situação: o filho deseja praticar um esporte por puro interesse. Os pais querem mudar o foco e convencem o garoto a trocar o basquete pelo inglês, por acreditar que o aprendizado de um segundo idioma é mais importante nessa batalha pelo emprego. O que eles não percebem é que o fato de o filho praticar um esporte, principalmente um esporte coletivo, vai fazer com que ele aprenda a se relacionar com uma equipe, a respeitar o outro, a concentrar suas energias na realização de um objetivo e assim por diante. “Ah, mas então você acha que não é para fazer um curso de inglês?” Claro que é, mas não tendo apenas como objetivo o emprego, tampouco desmerecendo outros tipos de saber.

    por Bruna Tokunaga Dias
    Gerente de Orientação de Carreira da Cia de Talentos

  • Compartilhe:
    Tags: