• A caneta ou o carrossel?

    1 Feb 2016
  • Ser publicitário é fazer escolhas o tempo todo. Ao contrário de carreiras exatas, como engenharia, na comunicação trabalhamos com muitas opções sem que uma delas seja a correta. A subjetividade do título desse texto, inclusive, faz parte do dia a dia de quem trabalha na área. Isso porquê um bom publicitário conta histórias o tempo todo e uma narrativa não é certa ou errada, feia ou bonita, mas ela precisa fazer sentido para o ouvinte.

    Há uns 20 anos, quando comecei minha carreira, a publicidade estava no“TOP 3” das faculdades mais concorridas dos vestibulares brasileiros. Porém, li, outro dia, um artigo que dizia que, na FUVEST desse ano, a profissão ocupava a oitava carreira mais disputada, ficando atrás de artes cênicas, por exemplo. Apesar disso, dizer que a Publicidade perdeu a importância, que não serve mais para nada, é uma enorme besteira.

    A queda na preferência dos estudantes é compreensível. O papel da comunicação em 1990 era diferente… Pense que há duas décadas a internet nem das fraldas tinha saído e a televisão reinava absoluta como fonte de informação e entretenimento de todo brasileiro.

    Um break comercial tinha um papel influenciador muito grande no dia a dia das pessoas. Não existiam redes sociais e suas milhões de opiniões sinceras e honestas (as vezes nem tanto) sobre um produto ou serviço feitas por pessoas comuns, gente como a gente. Naquela época, os 30 segundos eram tão importantes e decisivos para o consumidor quanto um vídeo de seu Youtuber favorito é hoje.

    Nos dias atuais, a publicidade tem uma responsabilidade ainda maior com uma marca e sua relação com as pessoas. Não basta ter o melhor produto, isso não define mais o processo de compra. O comprador sabe o que é bom ou ruim, ele busca informação e tem que quebrar muito mais a cabeça para transformar racionalidade simples e pura em emoções intensas e complexas.

    Bem, vale destacar que independente da evolução dos meios, do domínio dos smartphones, da internet, das redes sociais, do consumidor conectado e dono da informação, a publicidade ainda mantém intacta a sua essência. Ela continua apoiada no tripé: social, cultural e econômico.

    Não sei se já parou para pensar, mas a publicidade atua como embaixadora de um país. Costumo dizer que para entender de uma forma rápida as pessoas de uma região, ligue a TV e assista aos comerciais. É notável a ironia inteligente dos argentinos, o sarcasmo fino dos ingleses, o humor fácil e popular dos brasileiros, repare: está tudo no conteúdo.

    O papel cultural da profissão também é incontestável. Ele traz os elementos que refletem as preferências nacionais em determinada época, alguns exemplos: músicas, celebridades, histórias e jargões. Tem campanhas que fazem parte de exposições em museus de cultura pop mundo afora.

    Economicamente, a comunicação serve de propulsora de uma engrenagem gigantesca formada por indústrias, produtos, serviços e acima de tudo: pessoas. A Publicidade ajuda a manter a máquina girando, fomentando o consumo de forma responsável, sem criar necessidades, mas sim observando as pessoas e criando conexões emocionais entre elas e as marcas.

    Aliás, gostaria de convidá-los a clicar nos dois links abaixo – um deles explica o título desse texto.

    São dois vídeos bem curtinhos, que ilustram a diferença entre criar uma necessidade para vender algo e construir uma conexão emocional para o mesmo fim:

    O Lobo de Wall Street

    Madmen

    A diferença entre as duas abordagens é enorme. Na primeira Jordan Belfort, personagem não-fictício interpretado por Leonardo DiCaprio, mostra que, para se vender algo, é imprescindível criar uma necessidade.

    Na segunda, Don Draper, publicitário típico dos anos 60, interpretado por Jon Hamm na série Madmen, constrói uma história espetacular, emocionante, recheada de argumentos que tocam o mais frio dos humanos. Essa é a diferença entre um vendedor e um publicitário.

    Trabalhar na área tem seus altos e baixos, como em toda e qualquer profissão.

    Não é fácil entrar no mundo da comunicação. E uma vez dentro desse universo, prepare-se para trabalhar muito, sob relativa pressão. Ter ideias é fácil, encontrar as boas, é mais complicado. Por ser um trabalho intelectual e subjetivo, prepare-se também para lidar com frustrações. Nem sempre uma campanha é aprovada, mesmo que ela seja excelente na visão da maior parte dos envolvidos.

    Por outro lado, existem coisas muito bacanas. Você aprende a entender as pessoas, os sonhos, as vontades e necessidades delas. Você vê seu trabalho fazer diferença na sociedade, contribuindo com o crescimento de indústrias e mercados e gerando empregos. Vê a sua ideia cair na “boca do povo”, ouve pessoas comentando e escrevendo sobre ela na internet. Liga a TV, ou navega pela Internet, e dá de cara com a sua campanha (a sua “cria”). Isso é muito gratificante! Lembro também que a remuneração da área para quem leva a coisa a sério pode ser muito boa.

    Espero que esse texto colabore para a sua decisão e esclareça algumas questões sobre a carreira. Boa sorte!

    Leia também Essa tal publicidade…

    Marcus Freitas
    Diretor de Planejamento Estratégico de uma grande agência brasileira e que sempre escolhe o Carrossel na hora de fazer publicidade.

     

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